20.8.07


Outro dia vi um pedaço de filme na TV – um pedacinho, porque sou dessas que não resistem ao botão do controle remoto e, como todos sabem, a quantidade de canais em oferta é diretamente proporcional ao efeito zapping – filme em que as moçoilas de época usavam vestidos vaporosos e cabelos em ondas ou cachos emoldurados por chapéus bem trabalhados, na exata cor do vestido ou da emplumada sombrinha, pequenas luvas brancas e brincos de gotas de pérola, sempre fui fascinada por brincos de gotas de pérolas, a pérola mesmo, pura e redonda, não me diz nada, mas os brincos como gotas de pérolas me chamam a atenção, como em Moça com brinco de pérolas. Vi as imagens das moçoilas em seus vestidos vaporosos e um pensamento me passou pela cabeça, devo confessar, pensei que eu me sentiria muito bem nessa época retratada pelo filme de época, apenas para poder usar esses vestidos encantadores com cinturas estreitas e seios empinados, nessa hora da fantasia nem nos lembramos da tortura que era o espartilho. Calma, foi um pensamento rápido como são os pensamentos, logo caí na real, como assim me sentiria bem em outra época? Pra começar os vestidos vaporosos e decotes insinuantes são em geral de épocas em que a mulher valia nada, pode até ser que existisse algum glamour em pequenas castas da elite, mas logo se vê que eu não seria cortesã ou nobre da corte, mais fácil que eu nascesse mera cozinheira, provavelmente mulher do peixeiro ou de taberneiro, vivendo naquelas vielas imundas infestadas pelo esgoto, com vestidos sujos, rotos e escuros, sem charme ou glamour nenhum. Pior, nem nasceria na Europa, mas no subdesenvolvido Brasil. Foi caindo na real que tive consciência de que adoro viver nesta época em que vivo hoje. Talvez fosse legal ter nascido nos anos 1940, só pra viver os 1960 com vinte e pouco anos, mas aí hoje eu teria quase 70 e, além disso, teria vivido ainda mais na carne, ou literalmente na carne, os anos da ditadura militar. Foi bom, portanto, ter nascido na década de 1960, nos meus vinte e pouco anos a vida voltava a ser bela, embora a moda fosse um horror, mulheres e homens já tinham dado seu grito de liberdade, a democracia dava de novo o ar de sua graça, a tecnologia já anunciava novas revoluções. Hoje tenho maturidade suficiente para entender e gostar deste começo de novo milênio, embora não possa evitar certa pena dos que estão nascendo agora ou dos estão por nascer, seguramente o mundo de hoje é melhor. Não sinto saudades, nem do passado, nem do futuro.