24.8.07

Se você tem filhos pequenos já foi, certamente, convidada a participar de uma “reunião pedagógica” na escola dos pimpolhos. Não há coisa mais chata e antipedagógica do que essas reuniões na escola, com aquele bando de mães que não conseguem enxergar um milímetro à frente do próprio umbigo. A professora de artes começa a falar sobre a metodologia para estimular a criatividade de seu filho – como se crianças precisassem de alguma metodologia ou algum estímulo pra ser criativas – e antes que a professora termine a primeira frase, alguma mãe emenda: “meu filho não consegue desenhar nem um círculo”, ou “meu filho ainda não sabe o nome das cores”, qualquer imbecilidade que começa sempre com “meu filho (a)”, sem contar o infindável relato das artes que os especiais filhotes fizeram em casa. A reunião vira um tormento, com um apanhado de discussões desinteressantes e conversas paralelas, junte tanta mulher numa mesma sala e calcule o nível do ruído, todas falando ao mesmo tempo sobre as preocupações particulares dos pais, ou melhor, das mães, porque mesmo o censo do IBGE tendo apontado que os homens passam agora mais tempo em casa, eles continuam fazendo apenas as tarefas que lhes dá na telha e ir a reuniões na escola dos filhos raramente é uma delas. Calma, não sou do tipo que acha que escola é armário em que se guardam os filhos por algumas horas, hoje as famílias deixam pra escola as tarefas mais básicas da educação básica: ensinar a escovar os dentes, a lavar as mãos e a pronunciar palavras como por favor e obrigado viraram tarefas do maternal, mas continuo achando a chamada “reunião pedagógica” a coisa mais contraproducente do mundo. Melhor é conhecer bem as pessoas que lidam com seu filho, discutir dúvidas e trocar propostas, constantemente, não apenas no espaço de uma reunião mensal ou bimestral, em que se fala muito, mas não se chega a lugar algum. O problema é que depois que você finalmente aprende a se livrar dessas reuniões chatíssimas – eu, de minha parte, e há muito tempo, passei a ignorá-las solenemente, sem o menor complexo de culpa – tem que enfrentar a mesmíssima situação no trabalho. Em tempos de gestão mais horizontal, pelo menos no discurso, o difícil ainda é mudar a cultura do próprio umbigo. Chamem de espírito de corpo, se preferirem, fato é que raramente as pessoas de um grupo, sobretudo num foro multifuncional, conseguem enxergar além de seus pequenos e pobres problemas. A causa talvez seja a incapacidade de posicionamento, aquela mesma incapacidade que faz as pessoas se distanciarem da política, como se o ser humano não fosse um animal político. O jornalista Marcos Rocha, em seu blog Plano Geral, destaca Bertold Brecht, que já dizia que o pior analfabeto é o analfabeto político, que não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos, e não sabe que tudo na vida depende de decisões políticas. Se a proposta é discutir o futuro, surgem as picuinhas do presente, se a intenção é enxergar o macro, prevalecem as microdiferenças, se a meta é a convergência, pululam as divergências. A tortura vai se estendendo por horas, numa enorme perda de tempo, e você fará horas extras para por em dia o trabalho paralisado por mais uma reunião – reunião que, pelo menos, tem um lado pedagógico, ajuda a conhecer melhor a pouca originalidade de seus pares e a ver onde todos não vamos chegar. Infelizmente, é impossível simplesmente deixar de ir às chatíssimas reuniões de trabalho.