28.8.07

Ando bastante de táxi, são dois carros para quatro pessoas em casa e como não faz o menor sentido ficar com o carro parado no horário do trabalho, os que precisam do meu carro, me levam até lá. Na volta, consigo providenciais caronas porta-a-porta pelo menos duas vezes por semana, nos outros dias, vou de táxi. E sou dos que gostam de bater papo com o taxista. Jogo uma isca, “como estava quente hoje...” ou “que trânsito pesado, heim?” – se o taxista ficar calado ou responder com um monossílabo, sigo na minha, mas em 90% das vezes o motorista aproveita a deixa e solta o verbo. Conversar com os taxistas é bem instrutivo, são eles pródigos em informações, mesmo que apenas da cultura de rádio, e capazes de discursos elaborados se o assunto é o custo de vida, as mazelas da saúde ou da educação e, sobretudo, o trânsito (claro) e a violência nas metrópoles. E são, também, atentos observadores do comportamento humano, no dia e na noite das cidades, capazes de tiradas que deixariam alguns antropólogos de queixo caído. Como faço sempre o mesmo percurso e quase sempre no mesmo horário, acabo me encontrando com alguns deles várias vezes no mês. E tenho meus preferidos. Um gosta de contar detalhes não revelados pela imprensa dos mais recentes casos policiais, e nunca explica quem são as fontes, outro monitora o aumento da mendicância nas ruas, um terceiro gosta de discutir o governo Lula, do qual não é contra nem a favor, muita antes pelo contrário. Apenas um me dá extrema preguiça, até penso em evitar o carro dele, mas é feito ímã, o danado é quase sempre o primeiro da fila no ponto e a regra do ponto diz que o primeiro da fila é quem leva o cliente, não se pode escolher, não escolho. O homem tem aquela idade indefinida entre 40 e 60, impossível saber se é um velho bem conservado, magro e seco, ou um homem mais jovem com aparência caquética. Fala muito, mas não dialoga, vai desenrolando o fio de um longo monólogo, vez por outra checando pelo retrovisor se o passageiro no banco de trás está ouvindo ou dormindo. O homem é chato que dói e qualquer assunto existe apenas para chegar à mesma ladainha: a perdição de nossa juventude. Jovens bebem demais: “a senhora não acredita que duas moças lindas, assim arrumadinhas, de boa classe, já entraram no carro cheirando vodka”, mal sabe ele que entre as bebidas a vodka é a menos denunciadora; jovens fazem sexo demais: “tem que ver que descaramento, o casal aos beijos aí no banco de trás, com língua e tudo, eram umas crianças e já devem já ter ido pra cama, com certeza”, jovens saem tarde demais: “é à meia-noite que esses malucos saem de casa, é na hora morta, até 3 da manhã, que os vagabundos ficam na rua”; jovens... Olhei, pelo retrovisor, no olho daquele homem chatíssimo, magro e seco: “mas o senhor nunca foi jovem? nunca mentiu pros pais sobre onde estava? nunca tomou um porre com os amigos?...” Ele deu uma viradinha pra trás e lascou: “eu não, dona, sou adulto desde os 10 anos”. Acredito.