Estive fora uns dias, volto e encontro alguns comentários em meus posts, não posso negar que é interessante, até gratificante, ver que alguém passou por aqui, o divertido Rayol, a já amiga Simone e um novo RM – quem sabe Rafaela Maria, Renata Marta, mas não, o texto indica tratar-se de um ele, há de ser então Roberto Mauro, Ricardo Maurício, Roger Moore, tanto faz – RM acha graça de como as pessoas vão logo ficando íntimas na Internet, a explicação talvez esteja na possibilidade de se esconder atrás de letras, que usamos como um escudo da identidade, uma máscara que revela apenas o que queremos, ou o que julgamos querer, eu uso o truque pela metade, Luciana G. Seja bem-vindo RM, que aqui não há moderação de comentários, fique à vontade, será sempre um prazer e não, não li brincadeiras feitas no blog do Marcos Rocha, portanto não há como ter me ofendido, e sim, comecei cedo, tive o primeiro de três filhos aos dezoito e minha filha, que não é a primeira, teve o dela aos vinte e quatro. Estava fora cumprindo mais uma jornada de um curso caro, contratado pela empresa, com o pomposo nome de Programa de Formação de Dirigentes, ou algo assim, sendo claro por lá que ninguém dirige verdadeiramente nada, somos no máximo gerentes, supervisores, coordenadores ou chefes de alguma coisa, o que não é pouca coisa, mas, claro, não é igual a ser um dirigente, somos todos devidamente dirigidos. Não vou nomear a famosíssima instituição promotora do tal curso, não costumo cuspir no prato em que como, pelo menos enquanto como, é uma questão de higiene, e esse prato vai me saindo de graça, ou quase, se tempo for mesmo dinheiro, e vai me render ao menos mais uma pomposa linha no currículo. No tal programa, a chave para formar um dirigente é dar palestras e simular estudos de casos, chamados de cases, porque tudo em inglês nesses cursos é mais verídico e verossímil, e os títulos das palestras sempre começarão com a palavra gestão, gestão de negócios, gestão de pessoas, gestão de finanças, gestão de processos, gestão sendo sinônimo de gerência, mas ninguém mais quer ser gerente, parece coisa de loja de departamento, é bem mais elegante ser gestor. O curso é básico de dar dó e todos acabam mais interessados nos cofee break, que como o curso é famoso e caro, tem intervalos regados a sucos diversos, frutas de época, salgados e docinhos encomendados a um afamado buffet da cidade, sei disso porque lá estão, bem posicionados, os escondidos cartõezinhos. Na volta do lanchinho acabo protagonizando cena insólita para o local, visto como meca da consultoria em moderna gestão, capaz de transformar sólidas e verticalíssimas fortalezas empresariais em exemplos de gestão flexível e horizontal, vejam que a palavra gestão não nos larga nessa hora, feito pulga em cão sem dono. Volto para o anfiteatro de mais uma palestra – porque cursos como esses não são ministrados em simples salas de aula, há de se haver com o mais moderno equipamento da gestão do conhecimento, amplos anfiteatros com tecnologia Wi Fi para os desocupados de plantão conectarem seus lap tops, sobre as mesas são exibidos os fones para tradução simultânea, mesmo falando o professor em bom português, aliás nem sempre bom, o mestre munido de microfones sem fio, projetores, gigantescas telas de LCD e o que mais há de direito, embora se limite a projetar os mesmíssimos diagramas já distribuídos em apostila, como se fôssemos analfabetos completos – vou entrando, tímida, nesse cenário que me lembra uma mini Onu, quando alguém me pergunta, alto e bom som: “é você, então, a primeira dama?” Como assim? “Não foi você quem estacionou na vaga do presidente?” Faço um esforço de memória, são trocentas vagas em imensa área arborizada, metade das vagas sempre vazia, aonde diabos parei meu carro? Mas pra meu alívio não sou eu a primeira dama, outra desavisada colega de curso foi logo identificada como a abusada que teve a insensatez de estacionar o carro na vaga do presidente da moderníssima instituição.