A cidade fica na fronteira entre o Amazonas, o Acre e o Peru, a “última cidade da calha do Juruá”, um pontinho pequeno no extremo do mapa do Brasil. Incrustrada numa clareira da floresta, despida de árvores em praças ou ruas, em que o sol escaldante de dias mais longos que no sul maravilha queima a moleira – os povos da floresta quando se juntam em povoados fazem questão de deixar as árvores frondosas bem longe, como uma vingança contra a natureza. Meu amigo mineiro é técnico agrícola e foi parar neste canto do mundo, que tem cerca de seis mil habitantes, para trabalhar numa espécie de Emater amazonense – que tem, lá, o nome pomposo de Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas, ou o abreviado IDAM. Recém aprovado em concurso – e não cabe aqui explicar a longa saga que levou esse mineirinho para a floresta – meu amigo chegou e foi se apresentar ao prefeito, de família que se reveza no poder municipal das pequenas cidades da região há mais de duas décadas. Conta-se que o homem foi flagrado pela polícia, nas últimas eleições, com uma maleta contendo 200 títulos de eleitor, mas o caso nem chegou à justiça eleitoral. Ele e a mulher, que vem a ser a secretária de finanças do município, são pastores evangélicos, mas cada qual com sua própria igreja, Pequenas Igrejas, Grandes Negócios. O grandalhão prefeito cumprimentou meu amigo e explicou: “por aqui ninguém precisa de IDAM, aqui ninguém é dono de nada, ninguém tem escritura, isso tudo é terra da união, a prefeitura é que sabe das necessidades desse povo”. O mineiro, mineiramente, não revidou. Menos de duas semanas depois foi aberta a temporada estadual de Reestruturação de Crédito, a habitual renegociação das dívidas para obtenção de novos financiamentos, e o prefeito invadiu a sede do IDAM, um casebre de madeira com algumas mesas e cadeiras e um computador que se conecta na Internet por satélite de vez em quando, avisando que estava pronta a lista dos que obteriam novo crédito, incluindo aí a própria mulher, inadimplente com o financiamento para a abertura de uma butique. Qual um Forrest Gump tupiniquim, o mineiro respondeu que tudo bem, sem problemas, mas precisava antes consultar a sede do instituto em Manaus e chamar um técnico mais afeito às normas, formulários e requisições – como técnico agrícola recém empossado funcionário público, meu amigo nunca tinha visto tanto papel a preencher. O prefeito, claro, não apresentou a tal lista. Dois dias depois o meu amigo apanhou igual cachorro sem dono, de três homens que o cercaram na estrada, foi salvo por um grupo de evangélicos que saíam de um culto. Recuperou-se durante um mês em Manaus, quiseram transferir o mineiro para uma cidade mais próxima, mas meu amigo retornou para a floresta. De lá pra cá aprendeu a preencher formulários, alugou uma das poucas casas do povoado que tem banheiro e não se ajeitou ainda, porque as mulheres disponíveis têm 13 ou 14 anos e já estão grávidas, ou têm 35 anos, são avós e não querem mais ver homem pela frente. E olha pros lados quando está sozinho na estrada, à espera de nova peia, como se diz por lá, pois continua respondendo ao prefeito que tudo bem, mas tem que consultar antes a sede do instituto em Manaus.