8.10.07

Morreu a Michele, depois de lutar vários dias e comover meio país. Teve uma vida bem curta e talvez bem grande, pois reacendeu uma discussão mais que urgente, a questão do direito ao aborto no País. Em breve voltaremos ao debate sobre o tema, aqui no Verbo Feminino, não hoje, que tema como esse merece melhor reflexão – talvez porque não se trata, atualmente, de discutir se as mulheres têm ou não o direito a “dispor do próprio corpo” ou o do corpo de outro, indefeso, a discussão passa por quais mulheres têm esse direito. Hoje vou de assunto mais ameno:

Estive com Paulo César Falibusch Pires, rapagão de quase 1,90 de altura e barriga tanquinho, no auge dos seus 44 anos. Casado, pai de dois filhos, dono de lucrativa pousada em Floripa, o Paulo em questão deu muita sorte com a genética, sem dúvida, e também com a mídia – vive nas páginas das revistas e programas de TV, ganha burros de dinheiro pra aparecer em qualquer eventinho. E é o que ele fazia na cidade, participava do lançamento de uma coleção qualquer, não mais como desfilante, agora basta que apareça para enfeitar a platéia e permita um ou dois clics com os organizadores. A presença dele, no primeiro momento, nos assusta um pouco, é verdade, porque é como se um personagem fake das revistas, desses retocados em photoshop, aparecesse assim em carne e osso, coisa meio irreal. Mas logo surge o humano nele: pequenas rugas no canto dos olhos, um sotaque carioca chatíssimo, um ar meio blasè. Meu desconforto não se dava pelo confronto com a beleza do moço, o que me fazia mal, na verdade, era a algazarra das colegas de trabalho, postadas qual galinhas num poleiro, de bico aberto, completamente alvoroçadas, batendo asas, literalmente. Não sei se estavam em período fértil (aqui cabe um parêntesis sobre teoria interessante de um amigo meu, ginecologista, sobre as mulheres e o período ovulatório: diz ele que é muito fácil descobrir se uma mulher está na TPM ou se está ovulando, no primeiro caso as roupas são sóbrias ou escuras e o rosto se apresenta sem a cor de um batom, no segundo caso aparece a pele sob decotes mais insinuantes de roupas que chegam ao vermelho vivo. Ele, em sua experiência como ginecologista, atesta também que no período fértil as mulheres usam até calcinha e sutiã combinando!) Voltemos ao Paulo, sei que o moço está mais do que acostumado ao assédio e que as mulheres conseguem ser mais assanhadas do que qualquer homem babão mas, mesmo assim, fui ficando meio que sem graça, será que somos todas assim tão loucas, só por causa de um par de olhos verdes, ombros largos e corpo definido por músculos na medida exata? O homem estava ali para uma entrevista e a mulherada, devagarinho e em meio a alguns gritinhos, foi voltando ao trabalho. O bonitão falou por mais de 30 minutos e, sejamos justos, mostrou-se esperto, não diria inteligente, esperto, e gente simples. Mas vocês nem imaginam o esforço pra encontrar assunto pra tanto – com o passar do tempo, que passava devagar, pouco tempo, o homem foi ficando mais humano, mais bobo e, claro, mais feio. O efeito é bom e o desconforto vai embora: eu já estava me achando realmente linda!