16.10.07

Conheço um casal que não dá ponto sem nó, tudo bem que ele ganha os tubos como diretor de empresa do ramo siderúrgico, mas o casal sabe direitinho como aumentar o patrimônio, aqui em casa ganha-se bem menos e gasta-se de maneira bem diferente, dinheiro que sobra, quando sobra, vira jantar, livro, CD, vinho... Quando pinta um extra, viajamos. Fazer a tal poupança parece impossível, trocar de carro nem pensar, reformar a casa é sonho distante. O casal que conheço não leva vida totalmente sem graça, posto que o dinheiro por lá não é escasso como cá, mas a lista de prioridades é inversa da nossa, investimentos e bens vêm na frente, diversão depois. Foi assim que o casal comprou – para especular, não pra morar – apartamento num desses pombais de luxo construídos no paliteiro que se formou na área antes de proteção ambiental e que a corrupção na Câmara Municipal acabou entregando de bandeja aos especuladores imobiliários. O bairro tem o irônico nome de Belvedere e acabou com a vista da Serra que explica o nome de Belo Horizonte - o sucesso do paliteiro, aliás, alavancou nove novos empreendimentos verticais que acabarão definitivamente com as montanhas da vizinha Nova Lima, mas isso é assunto pra outra hora. O prédio em questão tem 80 minúsculos apartamentos de dois quartos e o pombal conta, claro, com os indefectíveis salão de festas, espaço gourmet, fitness, spa, piscina, solarium etc. etc. e três vagas para cada na garagem, num total de 240 automóveis entrando e saindo dia e noite. Nosso casal não pensava em morar em tal horror e acertou em cheio no investimento, o valor do apartamento comprado na planta é, hoje, cinco vezes maior. Ocorre que outro investimento fez a dupla vender o confortável apartamento de 4 quartos e se me mudar, temporariamente, para o espigão. Apesar do apartamento ser alto, a família é agora obrigada a conviver com o ruído do trânsito infernal lá embaixo e com o som de carros com alto falante explodindo funk, as ondas sonoras reverberam pelas torres de concreto. E, no meio da madrugada, hora em que a cidade finalmente adormece, meus amigos agora acordam com um estrondoso e estranho zumbido. Debruçados na minúscula varandinha – que prédio assim tem que ter uma – descobriram finalmente de que se trata: um vizinho de paliteiro é dono de possante Ferrari esporte, dessas que andam melhor a 300 km por hora. O dono do cobiçado símbolo de luxo, sem ter como fazer roncar o motor de dia, põe o despertador e retira a bicha da garagem, para infindáveis voltas de fórmula um. Durma-se com um barulho desses.