18.10.07

Minha filha dá aulas em oficinas de vídeo na periferia de Belo Horizonte. Aliás, uma oficina é na periferia, no infernal Conjunto Paulo VI, a outra é na favela mesmo, uma com o sonoro nome de Pedreira Prado Lopes, que a comunidade chama apenas de Pedreira – um pouco para evitar o trava-línguas, um pouco porque é, sem trocadilho, uma pedreira viver ali – e a polícia abrevia para PPL, diz que é de lá que sai o preço do grama da cocaína e da pedra de crack em Beagá, com a ajuda da “Data PPL” são atualizadas as cotações todos os dias. No infernal Paulo VI a oficina de vídeo é para adolescentes que se inscreveram por vontade própria, é verdade que a maioria preferia uma oficina de dança, de funk ou de axé, mas essas tiveram as vagas preenchidas primeiro, o jeito é encarar a oficina de vídeo mesmo. Na Pedreira, as aulas são para jovens infratores em liberdade assistida, esses são obrigados a se inscrever ou perdem chances e benefícios. É possível, pois, imaginar com que receptividade a oficina, e minha filha, foram recebidas por lá, a saudação mais calorosa foi de alguém que se levantou para anunciar: “não fico aqui nem fudeno”. Não pedi licença à minha filha pra falar sobre o trabalho dela e, na verdade, devo já me desculpar por imprecisões ou incorreções inevitáveis, não tenho como ser fiel aos fatos e suas múltiplas facetas, conheço apenas a face de minha filha quando chega em casa exausta e muitas vezes triste de dar dó. Não me chegam muitos detalhes, a filha sabe que há detalhes sobre essas idas freqüentes à Pedreira que deixariam as mães de cabelo em pé, me chegam apenas algumas frases soltas, comentários esparsos, um menino que não subiu o morro porque está jurado de morte, outro que sumiu das aulas por idêntico motivo, o irmão de um aluno que acaba de ser assassinado, uma criança que vai à aula com outra criança agarrada ao seio, uma redação sobre a vida que só fala em morte. Num lugar como esse, a idéia de realizar uma oficina de vídeo é temerária, a começar pelo fato de que se espera que a oficina termine com a produção de ao menos um vídeo. É preciso subir a favela com roupas simples que escondem equipamentos caros e é preciso, sobretudo, tomar cuidado para não filmar nenhum ângulo que desagrade aos traficantes locais, isso sim que é desafio. Em setembro a Pedreira enfrentou uma guerra, mais uma, entre gangues. Num fim de semana foram 4 baleados, no fim de semana seguinte homens encapuzados invadiram uma festa num sítio, mataram 7 e metralharam outros 14, dias depois um rapaz invadiu um ônibus e saiu atirando pra matar o rival, acertando também um velho de mais de 80 anos – e tem gente que ainda não acredita em destino, o velho passa dos 80, pega um inocente ônibus com o Free Pass dos velhinhos, pra morrer em frente à Pedreira com uma bala na cabeça. Várias aulas foram canceladas porque a polícia não sobe o morro, mas bloqueia as entradas cá embaixo, os moradores entrincheirados como num gueto de Varsóvia. Minha filha conhece parte da história de alguns dos mortos e feridos, a maioria mulheres e adolescentes. A guerra continua, claro, mas a polícia deu uma trégua, os governos anunciaram medidas de urbanização não se sabe pra quando e a imprensa já encontrou outras chacinas pra noticiar. Minha filha voltou a subir a Pedreira em outubro, com a coragem e a ousadia bem típica dos mais jovens. Os comentários dela estão cada vez mais esparsos.