Fui nesse domingo, havia apenas seis pessoas na sala de cinema – sinal de que a febre começa a passar. O que achei? Que fizeram muito barulho por nada, como quem procura cabelo em ovo. Estão lá todos os elementos que fazem um bom filme, o roteiro é muito bem amarrado, a narrativa tem ritmo, a fotografia é impecável, a trilha sonora é marcante, a montagem é excelente, os atores, todos, estão ótimos. A realidade nua e crua da guerra urbana no Rio de Janeiro é narrada na primeira pessoa, é um certo capitão militar de elite quem expõe seu ponto de vista, claro que o homem tem muita merda na cabeça, não se poderia esperar diferente, o filme deixa claro como se fabricam homens assim. O sujeito haverá de ter mentalidade curta e será capaz de apontar os maconheiros universitários como responsáveis pelo tráfico de drogas – num raciocínio tão rasteiro quanto culpar o aidético pela própria doença porque transou sem camisinha – e como se o crime organizado não pudesse encontrar rapidinho outra coisa tão lucrativa quanto, como por exemplo o tráfico de armas, na hipótese absurda de todos os consumidores de classe média e alta largarem repentinamente o vício. Mais um ponto pro roteiro na construção do personagem. Para os que dizem que o filme é coisa de fascista, Arthur Xexéo lembra que seria o mesmo que considerar Francis Ford Coppola mafioso porque imortalizou o Poderoso Chefão. O filme é necessário e oportuno por colocar o dedo na ferida e detonar, sem meias medidas, a Polícia Militar – incluindo o BOPE. Mas a classe mérdia, fã de Duro de Matar e apavorada com a violência urbana, não entendeu o filme – a maioria confunde argumento com ideologia, protagonista com herói e acredita que assistiu a uma apologia da manjada política do paredon. Jornalistas, articulistas, blogueiros e até professores mantém aceso o debate, enquanto o público consome como água plásticos com o símbolo da caveira cravada pela espada, os camelôs cariocas faturam alto vendendo bonequinhos do capitão com metralhadora em punho, um ator aproveita a onda para abrir badalado bar em Sampa e uma banda de rock encontra finalmente espaço nas rádios depois da sorte de ter a música escolhida para a abertura do filme. O diretor José Padilha, que já foi chamado de radical de esquerda depois de Ônibus 174, se diverte com a pseudo polêmica de agora, dizendo que em breve precisaremos de cinema com bula: “O Ministério da Cultura adverte: violência e tortura fazem mal à saúde”.
PS: MR e RM planejam debate sobre o filme. Melhor ir ao cinema.
PS: MR e RM planejam debate sobre o filme. Melhor ir ao cinema.