Esfriou, finalmente, depois de meses de um calor sufocante, se bem que os homens dizem que as mulheres confundem chuva com frio. Eu estava prevenida, sempre levo algum agasalho pro trabalho – quem me vê na rua entrando na empresa no começo da tarde deve pensar que sou louca, os termômetros marcando 35 graus e eu carregando um casaquinho – faço isso porque o ambiente é refrigerado demais. A chuva veio com aquele ventinho que no começo é refrescante e pura alegria, mas que logo nos deixa arrepiada e daí a pouco não tem como disfarçar, é frio mesmo. Saí do trabalho pra garoa, feliz da vida com minha quentinha jaqueta de veludo. Passei em frente à porta de um evento social, sei lá se vernissage, se lançamento de livro, se estréia de alguma peça alternativa, são essas coisas que ocupam os espaços culturais em plena segunda-feira. Na porta, se exibia uma curvilínea garota de 20 e poucos anos, com uma taça de espumante em uma das mãos, na outra uma minúscula bolsinha – dessas que mal guardam um batom. Espremia-se dentro de um vestido laranja de alcinhas, as costas nuas, pernas idem, os pés enfiados numa fantástica sandália dourada com salto de uns 15 centímetros, nunca consegui aprender a me equilibrar em cima desses. Passei perto e reparei: a moça não tinha um único pelinho do braço arrepiado, não sentia frio. Talvez se esquentasse com um certo alvoroço interior, a garota olhava aflita pra rua, com aquela cara de “será que ele vem?”. Me lembrei de frase que li, não lembro aonde – atenção turma que freqüenta o blog do Marconi Leal, estou deixando claro que li, e deixando claro que não lembro aonde, citação sempre foi meu fraco, fazer o quê? – a frase que li retrata a cena que vi: “gostosa não sente frio”.