29.10.07

A justiça tarda, mas não falha, já o legislativo falha, mas sabe ser rapidinho se a votação for em causa própria – alguém já viu vereador ou deputado gastando tempo com discussões em plenário, consulta à população ou análise de parecer de comissão se o assunto for o aumento do próprio salário ou dos benefícios? Rapidez maior ainda se verá se a votação for de interesse dos financiadores das campanhas, entre eles as grandes incorporadoras e as empreiteiras. Mudar a lei de uso e ocupação do solo ou aprovar um “novo” Plano Diretor de uma cidade são o caminho fácil e seguro para criar ou ampliar as brechas que permitirão o chamado progresso, às custas da natureza. Já comentei aqui que nove grandes “empreendimentos verticais” – leia-se pombal com pelo menos 20 andares, quatro por andar e trocentas vagas na garagem – serão construídos nas montanhas de Nova Lima, cidade vizinha a Belo Horizonte. As famílias de classe mérdia alta se encantam com os folhetos que mostram as projeções do paliteiro em meio ao verde, mas quem compra apartamento num desses prédios está condenado a viver num eterno canteiro de obras, quem constrói não entrega tudo de uma vez, vai se capitalizando ao longo do empreendimento – vende-se um para financiar o próximo. Pois a câmara municipal da cidade acaba de aprovar novas mudanças no Plano Diretor. Tudo para permitir o ingresso do comércio e do "turismo" no Jardim de Petrópolis, um pequeno reduto com lotes de 5 mil metros quadrados para residências unifamiliares e que, por isso mesmo, consegue preservar um importante bioma da Mata Atlântica, talvez o último remanescente na região metropolitana de Belo Horizonte. Aliás, o Brasil tem hoje apenas 7% da Mata Atlântica original e 11% do que resta foram destruídos em apenas 10 anos, mas isso não tem importância. A Mata Atlântica é considerada Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988, mas isso não é importante. A área de Nova Lima é protegida por lei federal específica, mas isso, claro, não importa aos ilustríassimos vereadores. Qualquer alteração no uso do solo em área de preservação deve ser aprovada primeiro pelo Conselho do Meio Ambiente, mas como Nova Lima nem sequer tem um, isso também não tem importância. O fato é que já estão na planta os projetos para a construção de bares, restaurantes, pousadas, casas de eventos, centros de convenções e aqueles terríveis espaços dedicados aos “esportes da natureza”, como trilhas, arvorismo, canoismo e outros ismos afins. Vai ser uma beleza, o sujeito vai morar no pombal com área de lazer cimentada e depois pagar para trepar numa árvore da antiga Mata Atlântica. Onças e miquinhos que se mudem pro zôo, isso não tem a menor importância.
Aos engraçadinhos que acharem que eu estou legislando em causa própria aviso que sim, certamente. Mas não possuo terreno ou casa no Jardim de Petrópolis.