Gosto de gente, tem dos que gostam e dos que não gostam de gente, me enquadro no primeiro tipo, não significa que não tenha também uma certa timidez, uma coisa não anula a outra. E mesmo sendo o que as pessoas chamam de “comunicativa”, minha timidez me leva sempre a aguardar o movimento e a fala do outro antes de começar a tagarelar. Gostando de gente – gostando, portanto, das diferenças, dos sotaques e das variadas possibilidades de inteligência – gosto de me fazer invisível para ouvir as conversas dos outros. Fiquei aliviada em saber que minha bisbilhotice não é só minha e que hábito (vício?) assim pode ser bem útil: de fragmentos de conversas da vida real Almodóvar retira os (in)verossímeis diálogos de sua filmografia. Sentado sozinho em alguma mesa de bar em Madrid, o diretor finge tomar um café enquanto estica os ouvidos para as conversas alheias, sobretudo as das mulheres. Minha bisbilhotice não é tão calculada nem tem objetivo tão nobre, não tem aliás objetivo algum, mas serve para ajudar a compreender como as pessoas vão compreendendo o mundo. Foi assim que me aproximei de um carrinho de pipoca, atraída pela conversa animada entre o velho pipoqueiro e um rapaz cabeludo, calças largas e cuecas à mostra. O pipoqueiro avisava que o espetáculo teatral que começaria logo, logo, em plena quarta-feira às 6 da tarde, era uma bosta: “já assisti, o pessoal me deixa assistir tudo aí nos ensaios no teatro. Rapaz, é ruim demaaaaaaais!”. E o rapaz: “é, mas eles entregam um resumo do texto no final, tá valendo, véio”. Do que falavam? Das montagens oportunistas dos falsos grupos de teatro, que “encenam” os livros do próximo vestibular.