Na fachada um enorme banner anuncia “o teatro de Bertolt Brecht em sua comunidade, entrada franca”. Os carros vão estacionando na estreita avenida de periferia, formam uma longa fila prateada, que carro novo é prata, algumas vezes cinza ou preto. Na fila, adivinhamos alguns que parecem ser do bairro, mas a maioria, como nós, pode pagar – reconhecemos dois professores de artes, uns dez atores de grupos diversos e mais uma cambada dos freqüentadores de sempre, moças metilucolamente desalinhadas em suas sandálias rasteirinhas e roupas de cara malha colorida – vi uns cinco vestidos Elvira Matilde, os rapazes de calças largas e sandálias de couro ou tênis. A peça começa às sete da noite, aqui fora o calor é imenso, lá dentro sabemos que será bem pior, o galpão é estreito e baixo, com telhas metálicas. A primeira sacada da noite é boa, entramos e somos servidos por atores travestidos em garçom, vende-se cerveja bem gelada, refrigerantes e salgados, o ambiente logo vira uma balbúrdia, afora o fato de que nos esprememos em estreitas fileiras de cadeiras plásticas. A adaptação do texto de Brecht tem toques ousados, está lá a metalinguagem, uma peça dentro da peça promovendo o devido distanciamento, e a ação salta para um futuro 2020, em que a idade penal baixa para 8 anos e se ergue um muro físico separando o morro da cidade aqui em baixo, a cidade somos nós, a platéia. Mas tudo é muito tosco, dos cenários aos figurinos, os atores são jovens e inexperientes, as atuações desniveladas, há até vozes que por vezes nem se ouve. A platéia é amiga e condescendente e noto que os poucos da comunidade parecem estar gostando de tudo um pouco, afinal as cenas e as falas são familiares, o teatro é didático ou não seria Brecht. Quando a peça termina estamos instalados em uma mesa do bar cenográfico – confesso que resisti a aceitar a troca de lugar depois do curto intervalo, minha timidez me deixa em pânico de ser arrastada à força para a cena, mas a amiga atriz garante que posso ficar sossegada. A peça chega ao fim toscamente como começou, estou louca de vontade de ir ao banheiro, não vejo nenhum, são nove da noite e tomei já duas cervejas. A platéia aplaude com vontade e de repente acontece – notem que uso o verbo acontecer: “tornar-se realidade, apesar de esforço ou interesse em contrário, por estar além da capacidade de controle ou de previsão, fato inesperado”, ensina o dicionário. Um rapaz se levanta e toma o microfone para contar, entre lágrimas verdadeiras, sobre a morte trágica do irmão assassinado – e de como culpou a mãe por não ser coragem. Baixa o pano.
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Sexta-feira conheci novos velhos amigos. Bom demais. Beijos pra Madame Sô, RM e MR.