Roney Maurício estava meio à toa no feriadão e decidiu cumprir uma promessa: depois de inúmeras participações lá no Plano-Geral - sim, o homem não tem blog, mas contribui para a audiência de vários - redigiu um post também para o Verbo. O homem estava meio receoso de contribuir para um site dito "feminino", mas convencido de que este é um espaço que os homens devem penetrar, pôs a mão na massa.
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OS OUTROS NOMES DE MINAS
Em homenagem a uma mineira
nascida em São Paulo
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OS OUTROS NOMES DE MINAS
Em homenagem a uma mineira
nascida em São Paulo
e criada no Rio de Janeiro
“Minas são muitas” e várias. Esta manjadíssima do Rosa só encontra rival à altura quando nos lembramos da voz, algo embargada, de um Tancredo recém eleito, na sacada do Palácio da Liberdade, situado em plena Praça da Liberdade: “Mineiros, o outro nome de Minas é liberdade...”.
Extraída à pena por mestre das letras, Mauro Santayana, a pérola ainda hoje faz arrepiar aqueles que a lêem ou escutam, como quando foi pronunciada, há quase um quarto de século. Pois eu, caros verbonautas, testemunha ocular e auditiva, estava lá. E me arrepiei.
Dona de um “mar de montanhas”, essa terra sem mar também contém mais de 15% das cidades brasileiras, exatos 853 municípios, cada qual com seu nome cheio de significados histórico, geográfico, religioso, político, enfim. Seguindo a linha iniciada por Roberto Pompeu de Toledo (VEJA, 17/10/07) e Marcos Rocha resolvo, bem mais modestamente, prestar homenagem à “arte de nomear povoações” (Toledo, op. cit.), desta feita só cidades de Minas Gerais. Pareceu adequado fazê-lo no Dia da República, ou da “liberdade” (não creiam, mais provável ter sido forma de ocupar o absoluto ócio de véspera de feriado - decretado, por mim mesmo, “feriadão”).
Minas, na qual não poderia faltar, tem também a sua Liberdade, pacata cidadezinha, com pouco mais de 5 mil habitantes (livres, libertos ou liberdenses), perdida ali pelas bocainas do sul do Estado. E outras 852 para todos e os mais variados gostos.
Mas, curioso, há padrões que se repetem. De todos o mais comum são os acidentes geográficos. Desde as cachoeiras: Cachoeira da Prata, Cachoeira de Minas, Cachoeira do Pajeú, Cachoeira Dourada e Carmo da Cachoeira. Os campos: Campo Azul, Campo Belo, Campo do Meio, Campo Florido, Campos Altos, Campos Gerais - e, de lambuja, Campina Verde e Campestre. Os rios, riachos e ribeirões somam 17 nomes, o que gosto mais é simplesmente Sem-Peixe. E divertidos nomes femininos, Rio Casca e Rio Pomba. Fora as vargens, outros 7 nomes de cidades (destaco Varginha, leiam bem). Há também as lagoas (6 nomes) e as riquezas minerais que deram nome ao “conjunto da obra”: Ouro Branco, Ouro Fino, Ouro Preto, Ouro Verde de Minas e ainda Prata, Pratinha, Diamantina, Esmeraldas e uma infinidade de outras pedras preciosas. E as passagens dos caminhos do ouro: Passa Quatro, Passa Tempo, Passa-Vinte e Passabém (nesta eu passo também).
Campeões nesse quesito são, naturalmente, as pedras e montanhas. As pedras: Itabira, Itabirinha de Mantena, Itabirito, Itarambim, Itacarambi, Itaguana, Itaipé, Itajubá, Itamarandiba, Itamarati de Minas, Itambacuri, Itambé de Mato Dentro, Itamagi, Itamonte (bela redundância), Itanhandu, Itanhomi, Itaobim, Itapagipe (não, nada a ver com trilha de jipeiro), Itapecerica, Itapeva, Itatiaiuçu, Itaú de Minas, Itaúna, Itaverava, Pedra Azul, Pedra Bonita, Pedra do Anta, Pedra do Indaiá, Pedra Dourada; e ainda, Pedralva, Pedras de Maria da Cruz e Rochedo de Minas (que é para não restar qualquer dúvida da procedência). E as famosas montanhas de Minas: Montalvânia, Monte Alegre de Minas (será que tem algum monte triste?), Monte Azul, Monte Belo, Monte Carmelo, Monte Formoso, Monte Santo de Minas, Monte Sião, Montes Claros, Morro da Garça, Morro do Pilar, Serra Azul de Minas, Serra da Saudade (lindo nome), Serra do Salitre, Serra dos Aimorés, Serrania, Serranópolis de Minas, Serranos e Serro (uma serra masculina). E, de quebra, Planura.
Há outros temas recorrentes: 14 clérigos (destaco o singelo Padre Pedro), 5 presidentes da república, 4 coronéis e um Guarda-Mor e um punhado de políticos, governadores, prefeitos, “coronéis”, parlamentares - nomes que ninguém mais se lembra a quem pertenceram.
E Minas não é nomeada apenas por “velharia”. São muitas as “novidades”: Nova Belém, Nova Era, Nova Lima (ou New Laima), Nova Módica (imaginem a velha), Nova Ponte, Nova Porteirinha, Nova Resende, Nova Serrana, Nova União (então por que se separaram?), Novo Cruzeiro (procurei, mas não achei “Novo Atlético”), Novo Oriente de Minas, Novorizonte (não confundir com a minha Belo Horizonte) e Vermelho Novo.
Ao lado da natureza íngreme e estonteante está a “nomenclatura” religiosa. Essa motivação responde por mais de uma centena de nomes de cidades mineiras. Só em homenagem à Mãe de Deus são 27. Alguns dos mais bonitos: Conceição dos Ouros, Dores de Campos, Mariana, Maria da Fé, Piedade das Gerais, Virgem da Lapa, Santa Maria do Suaçuí e Senhora dos Remédios.
Santos e santas então, são de dar inveja à Bahia de Todos os Santos: 4 Santa Bárbaras, 6 Santa Ritas, 10 Santanas (a mais curiosa, Santana do Jacaré), 8 Santo Antônios (destaques para Santo Antônio do Grama e Santo Antônio do Rio Abaixo, que deve ter sido vítima de uma moça casadoira não-contemplada com o milagre), 4 São Franciscos, 3 São Geraldos, 5 São Gonçalos, 14 São Joões (campeão da categoria), 9 São Josés, 8 São Sebastiões e ainda Santa Juliana, Santo Hipólito, Santa Margarida e mais um livrinho de “Santo do Dia”.
O tema religioso prevalece também em Coração de Jesus, Espírito Santo do Dourado, Jesuânia, Ladainha, Nazareno, Oratórios, Santa Cruz do Escalvado, Santa Cruz de Minas e por aí vão outras tantas.
Há, finalmente, alguns nomes curiosos e não-categorizáveis. Camacho (que deveria ser uma cidade gaúcha, tchê), Carneirinho, Carrancas, Casa Grande (faltou só a senzala), Chapada Gaúcha (que deve ser próxima de Camacho), Claro dos Poções, Cuparaque, Fama (quem nasce lá está condenado ao sucesso), Fervedouro, Formiga, Japonvan (será alguma colônia japonesa?), Juramento, Luz (certamente uma cidade muito bem iluminada), Maravilhas (assim mesmo, no plural), Ninheira, Paulistas, Pavão (também deve ser terra de gente muito macha), Perdões (que peço aos que nasceram na cidade anterior), Piranguinho (aí não, vão me desculpar, mas esse nome é mesmo altamente suspeito), Tiros (abaixa aí) e uma dupla que só pode ser de vizinhos - Ipanema e Ponto Chique.
O campeoníssimo nesta modalidade é a conhecida cidade de Pintópolis, por motivos obviamente óbvios. Não sei onde fica (nem quero saber), mas certamente não pode ser uma cidade contígua à Virginópolis, sequer vizinha ou da mesma região, por absoluta e completa incoerência.
Vou eleger algumas por razões sentimentais: Cláudio (cidade natal de minha mãe e que até hoje não conheci; a cidade, não a mãe), Ouro Preto (um sonho surrealista plantado no Itacolomi, só rivalizável por Salvador, uma espécie de Ouro Preto com mar) e Diamantina (linda cidade-cenário).
Por fim, escolho o nome mais bonito: é Bonito de Minas, aliás, lindo de Minas.
“Minas são muitas” e várias. Esta manjadíssima do Rosa só encontra rival à altura quando nos lembramos da voz, algo embargada, de um Tancredo recém eleito, na sacada do Palácio da Liberdade, situado em plena Praça da Liberdade: “Mineiros, o outro nome de Minas é liberdade...”.
Extraída à pena por mestre das letras, Mauro Santayana, a pérola ainda hoje faz arrepiar aqueles que a lêem ou escutam, como quando foi pronunciada, há quase um quarto de século. Pois eu, caros verbonautas, testemunha ocular e auditiva, estava lá. E me arrepiei.
Dona de um “mar de montanhas”, essa terra sem mar também contém mais de 15% das cidades brasileiras, exatos 853 municípios, cada qual com seu nome cheio de significados histórico, geográfico, religioso, político, enfim. Seguindo a linha iniciada por Roberto Pompeu de Toledo (VEJA, 17/10/07) e Marcos Rocha resolvo, bem mais modestamente, prestar homenagem à “arte de nomear povoações” (Toledo, op. cit.), desta feita só cidades de Minas Gerais. Pareceu adequado fazê-lo no Dia da República, ou da “liberdade” (não creiam, mais provável ter sido forma de ocupar o absoluto ócio de véspera de feriado - decretado, por mim mesmo, “feriadão”).
Minas, na qual não poderia faltar, tem também a sua Liberdade, pacata cidadezinha, com pouco mais de 5 mil habitantes (livres, libertos ou liberdenses), perdida ali pelas bocainas do sul do Estado. E outras 852 para todos e os mais variados gostos.
Mas, curioso, há padrões que se repetem. De todos o mais comum são os acidentes geográficos. Desde as cachoeiras: Cachoeira da Prata, Cachoeira de Minas, Cachoeira do Pajeú, Cachoeira Dourada e Carmo da Cachoeira. Os campos: Campo Azul, Campo Belo, Campo do Meio, Campo Florido, Campos Altos, Campos Gerais - e, de lambuja, Campina Verde e Campestre. Os rios, riachos e ribeirões somam 17 nomes, o que gosto mais é simplesmente Sem-Peixe. E divertidos nomes femininos, Rio Casca e Rio Pomba. Fora as vargens, outros 7 nomes de cidades (destaco Varginha, leiam bem). Há também as lagoas (6 nomes) e as riquezas minerais que deram nome ao “conjunto da obra”: Ouro Branco, Ouro Fino, Ouro Preto, Ouro Verde de Minas e ainda Prata, Pratinha, Diamantina, Esmeraldas e uma infinidade de outras pedras preciosas. E as passagens dos caminhos do ouro: Passa Quatro, Passa Tempo, Passa-Vinte e Passabém (nesta eu passo também).
Campeões nesse quesito são, naturalmente, as pedras e montanhas. As pedras: Itabira, Itabirinha de Mantena, Itabirito, Itarambim, Itacarambi, Itaguana, Itaipé, Itajubá, Itamarandiba, Itamarati de Minas, Itambacuri, Itambé de Mato Dentro, Itamagi, Itamonte (bela redundância), Itanhandu, Itanhomi, Itaobim, Itapagipe (não, nada a ver com trilha de jipeiro), Itapecerica, Itapeva, Itatiaiuçu, Itaú de Minas, Itaúna, Itaverava, Pedra Azul, Pedra Bonita, Pedra do Anta, Pedra do Indaiá, Pedra Dourada; e ainda, Pedralva, Pedras de Maria da Cruz e Rochedo de Minas (que é para não restar qualquer dúvida da procedência). E as famosas montanhas de Minas: Montalvânia, Monte Alegre de Minas (será que tem algum monte triste?), Monte Azul, Monte Belo, Monte Carmelo, Monte Formoso, Monte Santo de Minas, Monte Sião, Montes Claros, Morro da Garça, Morro do Pilar, Serra Azul de Minas, Serra da Saudade (lindo nome), Serra do Salitre, Serra dos Aimorés, Serrania, Serranópolis de Minas, Serranos e Serro (uma serra masculina). E, de quebra, Planura.
Há outros temas recorrentes: 14 clérigos (destaco o singelo Padre Pedro), 5 presidentes da república, 4 coronéis e um Guarda-Mor e um punhado de políticos, governadores, prefeitos, “coronéis”, parlamentares - nomes que ninguém mais se lembra a quem pertenceram.
E Minas não é nomeada apenas por “velharia”. São muitas as “novidades”: Nova Belém, Nova Era, Nova Lima (ou New Laima), Nova Módica (imaginem a velha), Nova Ponte, Nova Porteirinha, Nova Resende, Nova Serrana, Nova União (então por que se separaram?), Novo Cruzeiro (procurei, mas não achei “Novo Atlético”), Novo Oriente de Minas, Novorizonte (não confundir com a minha Belo Horizonte) e Vermelho Novo.
Ao lado da natureza íngreme e estonteante está a “nomenclatura” religiosa. Essa motivação responde por mais de uma centena de nomes de cidades mineiras. Só em homenagem à Mãe de Deus são 27. Alguns dos mais bonitos: Conceição dos Ouros, Dores de Campos, Mariana, Maria da Fé, Piedade das Gerais, Virgem da Lapa, Santa Maria do Suaçuí e Senhora dos Remédios.
Santos e santas então, são de dar inveja à Bahia de Todos os Santos: 4 Santa Bárbaras, 6 Santa Ritas, 10 Santanas (a mais curiosa, Santana do Jacaré), 8 Santo Antônios (destaques para Santo Antônio do Grama e Santo Antônio do Rio Abaixo, que deve ter sido vítima de uma moça casadoira não-contemplada com o milagre), 4 São Franciscos, 3 São Geraldos, 5 São Gonçalos, 14 São Joões (campeão da categoria), 9 São Josés, 8 São Sebastiões e ainda Santa Juliana, Santo Hipólito, Santa Margarida e mais um livrinho de “Santo do Dia”.
O tema religioso prevalece também em Coração de Jesus, Espírito Santo do Dourado, Jesuânia, Ladainha, Nazareno, Oratórios, Santa Cruz do Escalvado, Santa Cruz de Minas e por aí vão outras tantas.
Há, finalmente, alguns nomes curiosos e não-categorizáveis. Camacho (que deveria ser uma cidade gaúcha, tchê), Carneirinho, Carrancas, Casa Grande (faltou só a senzala), Chapada Gaúcha (que deve ser próxima de Camacho), Claro dos Poções, Cuparaque, Fama (quem nasce lá está condenado ao sucesso), Fervedouro, Formiga, Japonvan (será alguma colônia japonesa?), Juramento, Luz (certamente uma cidade muito bem iluminada), Maravilhas (assim mesmo, no plural), Ninheira, Paulistas, Pavão (também deve ser terra de gente muito macha), Perdões (que peço aos que nasceram na cidade anterior), Piranguinho (aí não, vão me desculpar, mas esse nome é mesmo altamente suspeito), Tiros (abaixa aí) e uma dupla que só pode ser de vizinhos - Ipanema e Ponto Chique.
O campeoníssimo nesta modalidade é a conhecida cidade de Pintópolis, por motivos obviamente óbvios. Não sei onde fica (nem quero saber), mas certamente não pode ser uma cidade contígua à Virginópolis, sequer vizinha ou da mesma região, por absoluta e completa incoerência.
Vou eleger algumas por razões sentimentais: Cláudio (cidade natal de minha mãe e que até hoje não conheci; a cidade, não a mãe), Ouro Preto (um sonho surrealista plantado no Itacolomi, só rivalizável por Salvador, uma espécie de Ouro Preto com mar) e Diamantina (linda cidade-cenário).
Por fim, escolho o nome mais bonito: é Bonito de Minas, aliás, lindo de Minas.
Roney Maurício