21.11.07

VOU TER MEU FERIADÃO!


Amigo meu encarou 4 horas de viagem no dia 15 e pegou três dias de chuvas ininterruptas num sítio que virou pura lama. É professor universitário o gajo, então bem-feito! Eu, que não sou mortal comum – os comuns folgaram na quinta, para honrar a Proclamação da República, eu sou menos que uma mortal comum, sou uma besta quadrada mesmo, trabalhei igual doida na quinta, na sexta e no sábado! – vou ter minha vingança agora. Sim, enquanto todos, incluindo alunos, professores e funcionários da Universidade, encaram o batente nos próximos dias, eu me preparo para quatro dias de descanso – quatro sim, porque emendo, eu também, meu feriado com o sábado e o domingo – volto ao trabalho apenas na segunda! Para aonde vou? Para mais dois dias do “curso” que vai me transformar, juram, numa dirigente.

GUERRA PELA AUDIÊNCIA

Depois de conquistar a liderança da audiência na hora do almoço, o telejornal regional da afiliada do SBT em Minas decidiu dar uma guinada em sua linha editorial. A audiência tinha sido conquistada duramente, mas também rapidamente – e tanto por mérito da equipe que lutava pelo primeiro lugar, quanto por demérito da então emissora líder, a plim-plim, com seu esportivo que só fala de Flamengo e Corinthians e um jornal cheio de entrevistas inúteis, matérias superficiais e “vivos” sem propósito algum, a não ser o de mostrar que a emissora tem, sim, a tecnologia. Para chegar ao primeiro lugar a estratégia foi, claro, “popularizar” a pauta – tradução: privilegiar as ocorrências policiais e os temas "de comunidade", com toques de sensacionalismo. Mas, também, buscar uma linguagem diferente, em que os entrevistados falavam bem mais que os habituais 15 segundos e o repórter participava da ação, pondo literalmente o pé na lama e a mão na massa. Pois depois de conquistar a liderança, a equipe resolveu dar uma guinada em sua linha editorial, aliás não propriamente na pauta, mas na maneira de apresentar os fatos. O arquivo da própria emissora revelava a quantidade de inocentes expostos ao ridículo e a penca de suspeitos mais tarde inocentados pela justiça, mas definitivamente condenados pela comunidade e até pela família. Bastou um pequeno seminário sobre ética, comandado pelo professor e filósofo Newton Bignotto, com horas de louca discussão sobre ética, moral, valores e... audiência, para o próprio grupo formular uma solução prática: tentar se colocar no lugar dos personagens de cada reportagem para decidir se a identidade e a imagem daquelas pessoas devem ser preservadas, o velho princípio do “não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você”. Foi o primeiro telejornal do país a preservar tanto o nome quanto a imagem de suspeitos de crimes, de vítimas e testemunhas ameaçadas, de qualquer pessoa em situação vexatória e, claro, de crianças e adolescentes em situação de risco, seguindo os preceitos do UNICEF. Com nome e cara na telinha, nas matérias de denúncia, apenas os julgados e condenados pela justiça e as pessoas “públicas”: políticos, autoridades e grandes empresários, aqueles que têm acesso fácil à mídia e meios para uma ampla defesa. No princípio foi o caos: ou o jornal apresentava um festival de imagens cheias de efeitos e desfocadas, ou os cinegrafistas só faziam o “take-feijoada”: pés, mãos, orelha... Encontrar um novo formato para contar uma história sem expor os protagonistas não foi tarefa fácil, mas o público, e a audiência, não reagiram mal à novidade – é bem verdade que chegaram algumas mensagens reclamando que “a emissora protege vagabundo”, mas bastavam dois minutos de conversa franca pro reclamão mudar de lado, em vez de mudar de canal. E claro que ainda hoje há uma situação meio ridícula, o jornal regional protege as pessoas da superexposição, mas meia hora depois todo mundo tem o focinho bem destacado pelo jornalismo do SBT, no mesmíssimo canal... Para a equipe mineira não importa, provou-se que a luta por audiência não precisa ser um desserviço. Pois não é que surge campanha de outro telejornal local, o da emissora do bispo, tocando exatamente nesse assunto? Diz a mensagem que “aqui a gente não esconde nada, você vai ver a cara de todos os bandidos”. Esperemos que essa nova guerra pela audiência não resulte em mais alguns exemplos entre milhares já ocorridos Brasil afora: a televisão conseguindo destruir toda uma vida em apenas 1 minuto.