Não se fala em outra coisa, na mídia e nas rodas de bar, a menina de 15 anos e corpo de 12 seviciada inúmeras vezes na cela que dividia com vários homens chocou o país. Todos sabemos como os homens, falo dos machos, são capazes de agir somente com a cabeça de baixo e todos sabemos também como o homem, falo do humano de qualquer sexo, é capaz de se perder no grupo, agindo como uma única massa. Eram 30 homens numa cela de 4 metros quadrados... Já se descobriu que a prática é comum por ali, pelo menos mais duas mulheres sofrendo a mesmíssima tortura já foram identificadas. Mas é a imagem da garota pobre e subnutrida, com seios despontando, servindo de mula aos esfomeados prisioneiros, que não sai da cabeça das pessoas. Houve até quem dissesse que a culpa foi dela mesmo, a débil mental não avisou que era menor de idade e não exigiu os direitos “garantidos” pelo ECA, nunca essa sigla foi tão adequada. Muitos ficam ainda mais estarrecidos ao saber que a ordem partiu de uma delegada, foi ratificada por uma juíza, num estado governado por uma mulher. Por que o espanto? Se por acaso os carrascos tivessem sido homens o crime seria mais compreensível? Esquecemos que a lógica da tortura e da crueldade não distingue homens e mulheres, a menina foi colocada ali para ser punida pelo crime que supostamente cometeu, um furto, e a punição feminina, desde tempos imemoriais e ainda hoje em várias culturas – incluindo a nossa – é a submissão sexual. Mulheres ainda são mutiladas na África, em toscas cirurgias para o corte do clitóris, e ainda são condenadas ao estupro, como no Afeganistão – o tribunal, masculino, determina até por quantos homens ela deverá ser deflorada, como se não bastasse apenas um. Também por aqui, mesmo nos grandes centros em que se respiram ares de primeiro mundo, muitas mulheres são subjugadas sexualmente. Lembremos que o estupro tem pouco a ver com o sexo, nada com o amor, é puro ato de violência e demonstração de poder. As carrascas do Pará, delegada, juíza e governadora, repetiam esse modelo histórico e perverso. Talvez até, quem sabe, um delegado tivesse poupado a menina. Pelo simples motivo de poder antecipar, como homem, as conseqüências do encontro entre a carne nova, literalmente, e 30 machos trancafiados, simples lógica de zoológico.