Pela manhã ele era um “pivete”, um “menor infrator”, certamente um “chefe de boca de fumo na favela”, as rádios repetiam a história a cada 20 minutos ou a cada 30, não importa, são as mesmas histórias que se repetem a intervalos, raro haver notícia nova. A da vez era a do “líder do tráfico” que havia sido preso pelos bravos homens da PM. À tarde ele era um “menino” e a história que se repetia no rádio era um pouco diferente, cinco homens da polícia militar tinham prendido um “menino” e barbarizaram o “garoto”, com direito a sevícias sexuais com o cassetete, no melhor estilo BOPE. Não satisfeitos, os PMs levaram o “menino” para a favela e o entregaram nas mãos da gangue rival para novas torturas, desta vez em praça pública. Talvez por pura burrice os policiais deixaram de fazer mais um presunto, em vez de despejar o cadáver em alguma vala, preferiram deixar o jovem de 16 anos na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, com uma explicação bizarra para os hematomas do estropiado: “o elemento se jogou de um barranco, ao tentar evadir-se da polícia” (sic). Escândalo formado, restou ao comando da PM informar que os cinco policiais responderão a inquérito, podemos ficar tranqüilos, mas continuam trabalhando normalmente, fique tranqüilo quem puder. Ah! O comando também alardeia que o jovem em questão tem uma passagem pela polícia, por furto. O que se aprende com o episódio? Pelo menos duas coisas: capitão Nascimento faz mesmo escola. E a imprensa ainda não aprendeu a lição mais primária: apurar os fatos, ouvindo o maior número de lados possíveis, já que é impossível ouvir todos.