18.6.08

Sinal dos Tempos

Marcos Rocha publicou dia desses – quem não viu pode correr lá pra conferir, rir é sempre bom – uma divertida listinha de instruções encontradas em embalagens portuguesas. Tudo no mais perfeito óbvio ululante, provando vez mais que falar a mesma língua não é garantia de mesmo entendimento. Pois percebo que não precisamos ir além-mar para descobrir dificuldades de comunicação, por aqui mesmo homens e mulheres não estão se entendendo, falando no mesmíssimo sotaque. Os sinais enviados por machos e fêmeas, antes de tão fácil interpretação, vão se perdendo e mudando rapidamente de significado, conforme caminha a humanidade. Brinquei lá no Plano-Geral que deve ser difícil paquerar em Portugal, pois se tudo levam ao pé da letra como os rótulos das embalagens indicam, provavelmente a sutil linguagem dos sinais dos desejos deve ficar imperceptível. Também por aqui canso de ver machos e fêmeas, de diversas idades, se queixando de que o(a) outro(a) não dá sinal claro sobre o que deseja, ou sobre que papel desempenhar. Pensei até em (re)editar um manualzinho com dicas bem óbvias, quase portuguesas:

1- se a gata olhar pra você e ficar passando a mão no cabelo, cruzando e descruzando as pernas, pode saber: dinal de está querendo se aproximar;
2- se o gostoso está olhando fixo pra você, empinando o peito e deixando em evidência o quadril, ou o pênis, pode apostar: sinal de que vai se aproximar;
3- deixar o pescoço à mostra, assim meio inclinada, é expor literalmente a jugular, sinal claro da vontade de virar presa;
4- se ele se inclina para segurar seu ombro, ou escorrega a mão boba por sua coxa, é sinal de que está louco pra ser predador.

Mas, claro, esses sinais são ainda fáceis de lidar, parece que o que não está rolando direito é o depois da abordagem. Mulheres se queixam, pasmem, que os homens estão indo devagar demais, homens reclamam das apressadinhas, a iniciativa feminina amedronta e muitas vezes funciona como um anti-Viagra. Sei que nossas avós já diziam que homem não gosta de “mulher fácil”, mas o que ocorre hoje, creio, é de ordem diferente, uma crise da identidade de gêneros, chamemos assim: homens não conseguem lidar com a iniciativa feminina quando o assunto é relacionamento – quando o assunto é sexo, lembremos, qualquer mulher serve – mulheres rejeitam a passividade e a sensibilidade masculinas. O mais engraçado é que passamos décadas, homens e mulheres, almejando exatamente isso: homens sensíveis e mulheres proativas. Acontece que as mulheres invadiram o espaço masculino, e os homens não deixaram por menos: tomaram posse de algumas prerrogativas femininas. Não posso falar pelos meninos, eles que se manifestem, mas as mulheres parecem querer a volta do bom, velho e simples macho: aquele que não disputa conosco nossos shampoos e cremes no banheiro, não demora horas se arrumando, não chora em comédia romântica e, principalmente, sabe o valor de uma boa pegada.