Tem gente que gosta de discutir pelo prazer da discussão. Plantar, cultivar e colher argumentos, buscar ângulos novos, polemizar. Fico vendo meus cachorros, que passam os dias preocupados apenas em trocar de lugar na grama, dez minutos no sol, dez minutos na sombra, pausa para uns goles de água – verdadeira e ótima “vida de cachorro”, mas prefiro a minha, mais simplesinha: pensar, argüir, conversar, discutir, decidir. Temo estar neste rol de bizarras pessoas que adooooram um bom papo. É verdade que ao vivo e em cores é bem melhor, já falei disso aqui, além das palavras há o tom, as pausas, o olhar e todos os signos da linguagem não verbal – tão capazes quanto o verbo de ofender, apaziguar, remendar, apaixonar. A palavra escrita é sempre um perigo, as vírgulas, pronomes e regências obedecem mais às regras gramaticais do que aos modos de falar, viva Guimarães que recusou essa rigidez. Eu e alguns outros por aí somos mais formais na escrita, escrevemos não como se diz, mas como se deve – ou pelo menos tentamos – e é aí mesmo que reside o problema. A palavra escrita é como documento registrado em cartório, não se pode escrever “eu te odeio” expressando puro amor, ou “eu sou um sucesso”, confessando o maior fracasso. Mesmo assim nos arriscamos, sem destemor pelo poder do verbo, uns e outros ficando ofendidos de verdade, mesmo pelo que é dito assim, como se fossem as bobagens que jorramos na mesa de um bar. Se o assunto é sexo as coisas mais que se complicam...