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| Se você viveu os anos 1980, SABE o que é breguice! |
Não fui jovem nos anos 1960, nascia ainda. Lembro quase nada do ano que nunca acabou, a não ser do terror que quase se instalou lá em casa quando meu pai e vários amigos, foram presos. Criança, passei por aquilo sem muitos traumas e só fui entender 1968, devo confessar, muitos anos depois. Minha juventude foi nos anos 1980, os mais bregas de todos os tempos, largas ombreiras, cabelos armados, batom branco, calças boca de sino, os homens desfilando com bolsas pesadas como chumbo, ninguém se lembra o que guardavam lá dentro. Uma geração tosca, mas que arriscava bem, talvez tivéssemos menos medo. Nos juntávamos por amor, não era preciso a cama, um colchão velho bastava e as primeiras transas eram na casa de algum amigo ou no banco do carro - emprestado. Não tínhamos frescuras com comidas ou com roupas, barbas e cabelos não davam o menor trabalho e não conjugávamos o verbo ter. Não tínhamos nada, ou quase nada. Carro? A glória era um fusca velho, desses que recebia até nome próprio e que ia caindo aos pedaços, sem os cuidados dos banhos constantes ou de uma simples checagem no nível do óleo, vê se alguém ia perder tempo conservando automóvel. Morada? Saíamos com alegria e correndo de casa e nos instalávamos em algum barracão de fundos, bairro simpático mas nem sempre familiar, copos de requeijão, talheres de cabo de plástico, alguns vasinhos e uma lata com o pé de maconha, a planta é linda. Móveis? Um colchonete com almofadas coloridas, alguns tamboretes, móbiles e uma estante montada com tijolos furados e tábuas de construção, quem lembra? Era o must. E como sobrevivíamos? Trabalhávamos, como todos, mas não éramos muito fiéis, não sentíamos tédio e não ficávamos estressados. Se não estávamos felizes, se não nos sentíamos bem, era só chutar o balde, outra coisa viria - e sempre vinha. A geração de hoje vai por outro caminho, acumula coisas e planeja até o presente. Pra juntar os trapos, só casando, para casar, só tendo casa, pra ter casa, só tendo geladeira duplex, microondas, máquina de lavar, home e o que mais houver a se comprar - melhor ficar na casa de papai mesmo. Pra trabalhar, só ganhando bem, nem que engolindo sapo, e de preferência com aprovação em concurso, que é pra ter estabilidade no marasmo vitalício. Paradoxo dos tempos: eu que estou ficando velha, por isso que estou tão sem paciência...
